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Lindas

A gravidez de um pai não se dá nas entranhas, mas fora delas. Ela se dá primeiro no coração, onde o sentimento de paternidade é gerado. Um desejo de ser e de se ver prolongado em outra vida, que seja parte de si mesmo, mas com vida própria. Imagino que deve ser frustrante a princípio.
Durante toda a espera, um pai é um pai sem experimentar o gosto de ser, sem os inconvenientes de uma gravidez, mas também sem as lindas emoções que tanto mexem connosco.
E quando ele sente pela primeira vez a vida que ajudou a gerar, tudo toma outra forma. Ele sente um chute e se diz já que este será um grande jogador de futebol. E muitas vezes se surpreende e se maravilha quando vê uma princesinha que sabe chutar tão bem. Mas tanto faz. Está ali um sonho que se torna palpável.
E um parto de um pai se dá quando ele pega pela primeira vez sua criança nos braços, quando ele se vê em características naquele serzinho tão miudinho que nem se dá conta ainda que veio ao mundo e que se tornou o mundo de alguém. E os sentimentos e emoções se atropelam dentro dele. E ele sente que, a partir desse instante, a vida nunca mais será a mesma. E ele precisa olhar dez, cem, mil vezes para acreditar que tudo não passa de um sonho. E geralmente há um enorme sentimento de orgulho que toma posse dele.
Assim se forma um pai. Pronto para ensinar tudo o que aprendeu da vida, um dia ele descobre que não sabe realmente muito, que na verdade aprende a cada instante. Diante da sua criança ele se torna um adulto vulnerável e acessível. E vai gerando, pouquinho a pouquinho, dentro de si mesmo, a arte de se tornar um pai.

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam se onde. Você podia ficar o dia sem vê lo, ele o dia sem vê la, mas sabiam se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
(Martha Medeiros)

Tento definir essa sensação de impotência, essa fraqueza que abala minha mente já doente e sozinha. Tentei encontrar me nos olhares de quem estava ao meu lado, tentei me sustentar nos sonhos que ouvi, tentei encontrar forças aonde não mais havia.
Caminhando sozinha percebi quantos sonhos abri mão, quantas vezes passei por cima de mim para que outro alguém sorrisse de corpo e alma e iluminasse o mundo por aí, de quantas pessoas conheci e apaixonada deixei voar pra longe de mim; encontrei a escuridão e o vazio de persistir e acreditar que conseguiria caminhar sozinha, quando na verdade até mesmo o maior dos tolos sabia que sozinha, nem uma alma é capaz de vagar sem se lesar pelas quinas da estrada.
Cai em becos sem saída, caí em vertigens e alucinações, caí sem forças pra levantar me apoiando em ter que continuar não por mim, mas por aqueles que estavam à minha volta. Hoje percebo que ali, esqueci de mim, esqueci de viver pra mim, esqueci que precisava de mim para continuar a seguir. Ali percebi que já não suportava mais a solidão, não queria mais esse caminho de escuridão, talvez ali também, percebi que era tarde demais
Olhei ao meu redor, no chão havia sangue e estilhaços espalhados do que um dia foram meus sonhos, minha esperança, minha força; encontrei fotos rasgadas de pessoas que deixei passar, de pessoas que saíram do meu caminho sem cogitar; havia folhas espalhadas da minha história esmaecidas irrecuperáveis; em um canto, havia amor, esquecido, largado, jogado como algo sem valor e por toda extensão havia medo, fúria, dor, lágrimas Tá um caos, tudo se tornou um caos, vozes sumiram, sorrisos se tornaram lembranças doces, presenças se espatifaram com o vento e a escuridão veio tomar conta de uma morada que não era dela.
Pode ter sido só um erro, talvez o erro foi abrir mão do primeiro sonho e desencadear sucessivas desistências; talvez tenha sido encontrar conforto na escuridão e no silêncio, como se de silêncios fizessem um mundo bom; talvez foi ter deixado passar por cima de mim, colocando a vontade dos outros melhores ou mais urgentes que as minhas vontades, ter aberto mão de sorrir para ver os outros sorrirem, ou talvez é ter feito tudo na esperança de um dia todo o feito voltar pra mim como uma avalanche de boas energias. Talvez o erro não tenha sido desistir, tenha sido ser incapaz, impotente, incoerente quando necessitava só um pouquinho de garra e vontade; talvez nem tenha tido erro, mas o medo tenha tomado conta do que um dia fazia toda a história ter sentido
Talvez ninguém sinta que há necessidade de sentido, ou talvez o sentido esteja nos motivos, e os motivos são tantos que nem cogitem percebê los, só sabem que são eles que dão toda a coerência em viver, dão todo o brilho em querer seguir cada vez mais E talvez seja esse querer, e esse motivo que não fazem mais parte do que hoje sou talvez não seja meu sorriso que faça falta, mas o sorriso de alguém ao olhar pra mim, talvez também nem tenha mais importância, se a importância de existir já sucumbiu em mim.
(Devaneadora)