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Margarida Rebelo Pinto

Laranjas no ar
Pega no telefone e liga lhe, não tens nada a perder.
Diz lhe que tens saudades dele, que ninguém te faz tão feliz, que os teus dias são secos, frios e áridos, como um deserto imenso, sem oásis nem miragens, sempre que não estão juntos.
Pega no telefone e liga lhe.
Se ele não atender, deixa lhe uma mensagem.
Ou então escreve lhe uma mensagem a dizer que queres estar com ele.
Não te alongues nem elabores, os homens nunca percebem o que queres deixar cair nas entrelinhas.
Tens de ser clara, directa, incisiva.
E não podes ter medo, porque o medo é o maior inimigo do amor.
Cada vez que deixares o medo entrar te nas tuas veias, ele vai gelar te o sangue e paralisar te os nervos, ficas transformada numa estátua de sal e morres por dentro.
A vida é uma incógnita, hoje estás aqui, amanhã podes ficar doente, ou cair te um piano em cima quando fores a andar na rua.
Ainda há pessoas que atiram pianos pela janela, sabias Nunca se sabe como será o dia de amanhã, por isso não percas tempo: pega no telefone e liga lhe.
Tenho a certeza que ele te vai ouvir, tenho a certeza que ele te vai ajudar, tenho a certeza que ele, à sua maneira e é tão estranha a forma como os homens gostam de nós ainda gosta de ti.
Mesmo que já não te ame, ainda gosta de ti, como tu vais aprender a gostar dele, quando a vida te obrigar a desistir deste amor.
Ele está longe, mas olha por ti por entre memórias, presentes e flores.
À noite, entre sonhos alterados pelo álcool, tu apareces lhe na cama e ele volta a sentir o cheiro da tua pele e volta a amar te com todas as suas forças.
Ainda que não acredites, tu viverás para sempre nele, tal como ele vive em ti, na memória das tuas células, num passado que pode ser o teu escudo, mesmo que não seja o teu futuro.
Pega no telefone e liga lhe.
Fala com ele de coração aberto, diz lhe que o queres ver, chora se for preciso, pede lhe que te diga se sim ou se não.
Se for preciso, por mais que te custe, pede lhe para te escrever a palavra NÃO.
Pede lhe uma resposta para o teu coração.
Mais vale saberes que acabou tudo do que viveres com as laranjas todas no ar, qual malabarista exausto, sem saberes nem como nem quando elas vão cair.
Mais vale chorar a tristeza de um amor perdido do que sonhar com um oásis que se transformou numa miragem.
Pega no telefone e liga lhe.
Liga as vezes que forem precisas até conseguires uma resposta, a paz de uma certeza, mesmo que essa certeza não seja a que desejavas ouvir.
Mas não fiques quieta, à espera que a vida te traga respostas.
A vida é tua, tens de ser tu a vivê la, não podes deixar que ela passe por ti, tu é que passas por ela.
E quando todas as laranjas caírem, apanha as com cuidado, guarda as num cesto e muda de profissão.
O circo é para quem não tem casa nem país, não é vida para ninguém.
Guarda as laranjas num cesto, leva as para casa e faz um bolo de saudades para esquecer a mágoa.
E nunca deixes de sonhar que, um dia, tal como eu, vais encontrar alguém mais próximo e mais generoso, que te ensine a ser feliz, mesmo com todas as pedras que encontrarem no caminho.
Larga as laranjas e muda de vida.
A vida vai mudar contigo.

( )Às vezes mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer, arrumar do que cultivar, anular do que desejar.
No ar ficará para sempre a dúvida se fizemos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito, ( ).Às vezes é preciso mudar o que parece não ter solução, deitar tudo abaixo para voltar a construir do zero, bater com a porta e apanhar o último comboio no derradeiro momento e sem olhar para trás, abrir a janela e jogar tudo borda fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar a chave fora, ou então pedir a alguém que guarde tudo num cofre e que a seguir esqueça o segredo.Às vezes é preciso saber renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, não aceitar sem participar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio e paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir.
E partir para outro mundo, para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer, construir, investir, amar.
Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho e mesmo que não haja caminho porque o caminho se faz a andar, o sol, o vento, o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira.
Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar.
Até se conformar e um dia então esquecer.